O livro do jornalista Ayrton Centeno resgata com precisão cirúrgica a memorável ocupação das fazendas Macali e Brilhante, em Ronda Alta (RS). O que parecia um ato isolado de desespero de algumas famílias sem-terra tornou-se o estopim para o renascimento do movimento social no campo após anos de silenciamento forçado pelo regime militar. São apresentados detalhes e histórias daquele período hostil, mas também fala sobre gente, sobre pessoas que "trabalham toda a vida na terra mas não tem um pedaço de chão do seu país", sobre o medo da repressão, a coragem de mulheres e homens que não tinham nada a perder, e a solidariedade que nasceu debaixo de lonas pretas.
A modernização dolorosa da agricultura expulsava milhares de colonos de suas terras, empurrando-os para o êxodo urbano ou para a miséria das margens das rodovias. Ayrton Centeno detalha como essas famílias, apoiadas por setores progressistas e por lideranças locais, se organizaram em absoluto segredo. O livro revela a engenharia política da época, os trâmites que privilegiavam a elite em detrimento da vida e trabalho daqueles que nada possuíam.
"Primeira Terra" é uma obra que luta contra o esquecimento. Em tempos onde o debate sobre o agronegócio e a agricultura familiar frequentemente cai em polarizações, o livro de Ayrton Centeno nos lembra de onde viemos.

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