sexta-feira, 19 de junho de 2026

Leituras obrigatórias: um panorama de Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf

 


"Com Dalloway não tinha constrangimento. Era um excelente homem; um pouco limitado, um pouco espesso; sim, mas um excelente homem. No que quer que se metesse, fazia-o da mesma maneira positiva; sem um toque de imaginação, sem uma faísca de brilho, mas com a inexplicável delicadeza característica de seu tipo."

Quantas coisas podem acontecer em um dia? Em Mrs. Dalloway, acompanhamos Clarissa Dalloway, uma mulher da elite de Londres pós-Primeira Guerra, que sai de manhã para comprar flores para a festa que vai dar à noite. Só isso. 24h de um dia comum onde a óptica se passa dentro dos pensamentos de Clarissa, onde nada é realmente simples — memórias de juventude, escolhas do passado, arrependimentos e as pressões sociais do presente. Woolf foi precursora do feminismo contemporâneo, ao nos entregar mrs. Dalloway, passamos a vivenciar o peso de abrir mão de seus desejos de juventude, de sua liberdade e de um amor genuíno para se casar com um homem estável e previsível. Ela fez o que a sociedade esperava dela: tornou-se a "anfitriã perfeita". Clarissa não tem nome, é simplesmente mrs. Dalloway.

Virgínia Woolf é considerada uma das principais escritoras do século XX, foi uma das pioneiras no uso de fluxo de consciência, em vez de contar uma história com "início, meio e fim" tradicionais, a escrita dela imita o ritmo real dos nossos pensamentos: caótico, fluido, pulando de uma lembrança de dez anos atrás para o barulho de um carro na rua em um piscar de olhos. Ela prova que, um dia normal na vida de qualquer pessoa pode ser tão grandioso quanto uma epopeia. 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Sugestão de leitura: Primeira Terra


O livro do jornalista Ayrton Centeno resgata com precisão cirúrgica a memorável ocupação das fazendas Macali e Brilhante, em Ronda Alta (RS). O que parecia um ato isolado de desespero de algumas famílias sem-terra tornou-se o estopim para o renascimento do movimento social no campo após anos de silenciamento forçado pelo regime militar. São apresentados detalhes e histórias daquele período hostil, mas também fala sobre gente, sobre pessoas que "trabalham toda a vida na terra mas não tem um pedaço de chão do seu país", sobre o medo da repressão, a coragem de mulheres e homens que não tinham nada a perder, e a solidariedade que nasceu debaixo de lonas pretas. 

A modernização dolorosa da agricultura expulsava milhares de colonos de suas terras, empurrando-os para o êxodo urbano ou para a miséria das margens das rodovias. Ayrton Centeno detalha como essas famílias, apoiadas por setores progressistas e por lideranças locais, se organizaram em absoluto segredo. O livro revela a engenharia política da época, os trâmites que privilegiavam a elite em detrimento da vida e trabalho daqueles que nada possuíam.

"Primeira Terra" é uma obra que luta contra o esquecimento. Em tempos onde o debate sobre o agronegócio e a agricultura familiar frequentemente cai em polarizações, o livro de Ayrton Centeno nos lembra de onde viemos.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Sugestão de leitura: De onde eles vêm, de Jefferson Tenório

 Ambientado em Porto Alegre, este romance do ilustre autor de O Avesso da Pele nos transporta para os anos 2000, quando os primeiros alunos cotistas da começam a surgir nas universidades brasileiras. As cotas raciais reservam uma porcentagem das vagas em universidades públicas como forma de corrigir desigualdades sociais, promovendo inclusão social e representatividade a populações estigmatizadas. Nosso protagonista Joaquim, um jovem negro, órfão e periférico, vivencia o que é ser cotista dentro da universidade dominada pela elite branca. Sua presença na faculdade de letras geram duvidas entre os alunos se ele deveria estar inserido ali. Por ser cotista, Joaquim é obrigado a provar ser merecedor desse espaço. O autor joga luz sobre o discurso meritocrático, visto que mesmo a reparação histórica com as cotas não retira a desigualdade material e social que dificulta na permanência de Joaquim na faculdade. Não basta apenas a reserva da vaga, as universidades públicas devem estar prontas para receber e manter esse aluno nos estudos. É necessário olhar para o ponto de partida, compreender a importância das cotas raciais e sociais é um exercício de cidadania que humaniza o debate público e nos prepara para construir uma universidade que seja, de fato, plural, justa e representativa de toda a sociedade brasileira.


"A volta para casa foi um inferno (...). O calor era sobrenatural. Em pé e apertado, no ônibus da linha Jardim São Pedro, eu olhava para fora e quase podia ter certeza que o asfalto derretia."

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Leituras obrigatórias: um panorama sobre "Ideias para adiar o fim do mundo", de Ailton Krenak


O escritor, filósofo e líder indígena Ailton Krenak traz um diálogo
essencial sobre a separação entre a Humanidade e a natureza Quando começamos a ver a nossa maior riqueza como “objeto de consumo” ou “recurso natural” a ser explorado? Quando esquecemos que fazemos parte dessa natureza, e somos impactados diretamente por ela? 

O autor apresenta uma crítica contundente ao que chama de Antropoceno: uma era em que nossa espécie altera o clima e a vida de forma irreversível, mas permanece alienada em um consumismo exacerbado.

As ideias para adiar o fim do mundo, como o livro se apresenta, não são uma fórmula mágica para salvar o planeta, elas servem para aprendermos que o fim do mundo pode ser adiado através da nossa capacidade de contar histórias e de reconhecer o rio e a montanha como nossos parentes, de compreender de onde viemos e para onde podemos ir; é resistência através da subjetividade e do afeto.






quarta-feira, 6 de maio de 2026

Sugestão de leitura: Infocracia

 

"A técnica digital da informação faz com que a comunicação vire vigilância. Quanto mais geramos dados, quanto mais intensivamente nos comunicamos, mais a vigilância fica eficiente."

O livro Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia, escrito pelo filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han faz uma análise aguçada sobre como a enxurrada de informações está, ironicamente, destruindo a nossa liberdade e a própria democracia. 
O autor argumenta sobre como estamos nos tornando “dados” para alimentar algoritmos voluntariamente, um processo que ele define como psicopolítica digital. Ao cedermos nossas informações de forma contínua e inconsciente, permitimos que sistemas algorítmicos influenciem nossa subjetividade. 
Para Byung-Chul Han, a conectividade total não nos libertou; ela nos aprisionou em uma vigilância invisível onde a verdade morreu em troca de cliques e a política virou entretenimento dentro do mundo virtual. 
Este é um livro curto e essencial para entender porque a comunicação online tem se transformado em um campo de batalhas, onde perdemos a capacidade de escuta e de debate.