sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Leituras obrigatórias: um panorama sobre "A teus pés", de Ana Cristina Cesar

"Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão,
por injunções muito mais sérias, lustrar pecados
que jamais repousam?"

A autora desconstrói o lirismo tradicional ao apresentar prosas poéticas que se utilizam de conversa informal e linguagem cotidiana, como resposta a censura no período da Ditadura Militar, A teus pés é uma obra escrita por Ana Cristina César e publicada em 1982, sua obra é um icone da Poesia Marginal, onde o tom do texto era irônico, informal e direto, utilizando de gírias, e do movimento da Geração Mimeógrafo nos anos 1970/80, que vem diretamente do seu meio de produção, os próprios escritores imprimiam seus livretos em casa ou em diretórios acadêmicos.

A autora se utiliza de elementos linguísticos simulam a proximidade, entregando segredos e contando intimidades, enquanto constrói uma persona literária. Trata-se de uma intimidade encenada entre o "eu lírico" e o leitor. É uma obra onde a subjetividade feminina, a exploração do corpo, da sexualidade, da solidão urbana e do ambiente doméstico se entrelaçam poeticamente enquanto prendem o leitor com uma escrita intimista e poderosa.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Sugestão de leitura: Descolonizando afetos, por Geni Núñes

"celebrar nossas paixões é tão legítimo quanto nadar no rio: a mesma natureza que nos deu a vida nos presenteou com liberdade. Por isso, o primeiro território que descolonizo é a minha pele." 

Em Descolonizando Afetos: experimentações sobre outras formas de amar, a ativista indígena Geni Núñez nos envolve na poética efervescente de seu povo e nos convida a repensar a exclusividade nos relacionamentos afetivos a partir da ótica anticolonial. Ao trabalhar de forma sensível as relações cotidianas e interpessoais, Geni demonstra que as noções de posse e exclusividade, muitas vezes herdadas da colonização, podem limitar nossas conexões. Com respeito, acolhimento e profunda responsabilidade afetiva, a obra desconstrói alguns dos equívocos e preconceitos mais comuns acerca da não monogamia política. Descolonizando Afetos não é apenas um livro sobre relacionamentos; é um manifesto sensível para quem deseja libertar o amor de suas velhas amarras coloniais e construir pontes mais sinceras consigo mesmo e com o outro.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Sugestão de Leitura: Canção para Ninar Menino Grande

"Fio Jasmim trazia no corpo a pressa dos dias e a lentidão das noites vazias. Buscava nos braços das mulheres um acalanto que ele mesmo não sabia nomear, como se cada corpo feminino fosse um porto temporário para a sua eterna errância. Homem grande, musculoso, mas que carregava no peito o choro contido de um menino que a vida esqueceu de ninar."

Neste livro, Conceição Evaristo transborda poesia e realidade ao nos entregar Fio Jasmim, que reflete com maestria as contradições complexidades em torno da masculinidade de homens negros e os efeitos nas relações com mulheres negras. Aqui, nosso protagonista é um homem em fuga de si mesmo, que busca nos braços de muitas mulheres o acalanto que lhe falta na alma. A narrativa também aborda a tremenda força das mulheres que cruzam sua vida, que ditam o ritmo do jogo e decidem quando fechar as portas para ele. A autora costura uma narrativa arrebatadora sobre solidão, desejo e as marcas profundas que o tempo deixa na pele e no coração.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Leituras obrigatórias: um panorama de Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf

 


"Com Dalloway não tinha constrangimento. Era um excelente homem; um pouco limitado, um pouco espesso; sim, mas um excelente homem. No que quer que se metesse, fazia-o da mesma maneira positiva; sem um toque de imaginação, sem uma faísca de brilho, mas com a inexplicável delicadeza característica de seu tipo."

Quantas coisas podem acontecer em um dia? Em Mrs. Dalloway, acompanhamos Clarissa Dalloway, uma mulher da elite de Londres pós-Primeira Guerra, que sai de manhã para comprar flores para a festa que vai dar à noite. Só isso. 24h de um dia comum onde a óptica se passa dentro dos pensamentos de Clarissa, onde nada é realmente simples — memórias de juventude, escolhas do passado, arrependimentos e as pressões sociais do presente. Woolf foi precursora do feminismo contemporâneo, ao nos entregar mrs. Dalloway, passamos a vivenciar o peso de abrir mão de seus desejos de juventude, de sua liberdade e de um amor genuíno para se casar com um homem estável e previsível. Ela fez o que a sociedade esperava dela: tornou-se a "anfitriã perfeita". Clarissa não tem nome, é simplesmente mrs. Dalloway.

Virgínia Woolf é considerada uma das principais escritoras do século XX, foi uma das pioneiras no uso de fluxo de consciência, em vez de contar uma história com "início, meio e fim" tradicionais, a escrita dela imita o ritmo real dos nossos pensamentos: caótico, fluido, pulando de uma lembrança de dez anos atrás para o barulho de um carro na rua em um piscar de olhos. Ela prova que, um dia normal na vida de qualquer pessoa pode ser tão grandioso quanto uma epopeia. 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Sugestão de leitura: Primeira Terra


O livro do jornalista Ayrton Centeno resgata com precisão cirúrgica a memorável ocupação das fazendas Macali e Brilhante, em Ronda Alta (RS). O que parecia um ato isolado de desespero de algumas famílias sem-terra tornou-se o estopim para o renascimento do movimento social no campo após anos de silenciamento forçado pelo regime militar. São apresentados detalhes e histórias daquele período hostil, mas também fala sobre gente, sobre pessoas que "trabalham toda a vida na terra mas não tem um pedaço de chão do seu país", sobre o medo da repressão, a coragem de mulheres e homens que não tinham nada a perder, e a solidariedade que nasceu debaixo de lonas pretas. 

A modernização dolorosa da agricultura expulsava milhares de colonos de suas terras, empurrando-os para o êxodo urbano ou para a miséria das margens das rodovias. Ayrton Centeno detalha como essas famílias, apoiadas por setores progressistas e por lideranças locais, se organizaram em absoluto segredo. O livro revela a engenharia política da época, os trâmites que privilegiavam a elite em detrimento da vida e trabalho daqueles que nada possuíam.

"Primeira Terra" é uma obra que luta contra o esquecimento. Em tempos onde o debate sobre o agronegócio e a agricultura familiar frequentemente cai em polarizações, o livro de Ayrton Centeno nos lembra de onde viemos.