sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Sugestão de leitura: Brasil dos humilhados, de Jessé Souza

Em Brasil dos humilhados: uma denúncia da ideologia elitista, Jessé Souza oferece uma análise sobre como a elite intelectual construiu uma narrativa distorcida que justifica e perpetua a desigualdade no país. Falácias como "povo preguiçoso", "brasileiro não gosta de trabalhar", reforçam uma visão de que o povo brasileiro não possui a inteligência para compreender a politica que os cerca. Lidamos com visões hegemônicas sobre nós mesmos que são usadas pela elite e sua imprensa para nos descrever como mais desonestos, mais feios e mais burros que os habitantes do Norte global, como se estivéssemos amaldiçoados a reproduzir tipos sociais inconfiáveis. Jessé Souza utiliza este livro para expor, de forma acessível, a maneira como a elite faz uso desse poder para enfraquecer políticas publicas e aumentar privatizações em benefício próprio. Esse preconceito naturaliza o abismo social do Brasil, mascarando a falta de oportunidades básicas como "falha individual", quando na realidade estes estão sendo retirados em plena vista.

"O cerne da contribuição de Jessé Souza reside na tentativa de mostrar que as sociedades modernas 'centrais' e 'periféricas' não são tão distintas como parecem." - Alexandre de Freitas Barbosa

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Leituras obrigatórias: um panorama sobre "A teus pés", de Ana Cristina Cesar

"Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão,
por injunções muito mais sérias, lustrar pecados
que jamais repousam?"

A autora desconstrói o lirismo tradicional ao apresentar prosas poéticas que se utilizam de conversa informal e linguagem cotidiana, como resposta a censura no período da Ditadura Militar, A teus pés é uma obra escrita por Ana Cristina César e publicada em 1982, sua obra é um icone da Poesia Marginal, onde o tom do texto era irônico, informal e direto, utilizando de gírias, e do movimento da Geração Mimeógrafo nos anos 1970/80, que vem diretamente do seu meio de produção, os próprios escritores imprimiam seus livretos em casa ou em diretórios acadêmicos.

A autora se utiliza de elementos linguísticos simulam a proximidade, entregando segredos e contando intimidades, enquanto constrói uma persona literária. Trata-se de uma intimidade encenada entre o "eu lírico" e o leitor. É uma obra onde a subjetividade feminina, a exploração do corpo, da sexualidade, da solidão urbana e do ambiente doméstico se entrelaçam poeticamente enquanto prendem o leitor com uma escrita intimista e poderosa.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Sugestão de leitura: Descolonizando afetos, por Geni Núñes

"celebrar nossas paixões é tão legítimo quanto nadar no rio: a mesma natureza que nos deu a vida nos presenteou com liberdade. Por isso, o primeiro território que descolonizo é a minha pele." 

Em Descolonizando Afetos: experimentações sobre outras formas de amar, a ativista indígena Geni Núñez nos envolve na poética efervescente de seu povo e nos convida a repensar a exclusividade nos relacionamentos afetivos a partir da ótica anticolonial. Ao trabalhar de forma sensível as relações cotidianas e interpessoais, Geni demonstra que as noções de posse e exclusividade, muitas vezes herdadas da colonização, podem limitar nossas conexões. Com respeito, acolhimento e profunda responsabilidade afetiva, a obra desconstrói alguns dos equívocos e preconceitos mais comuns acerca da não monogamia política. Descolonizando Afetos não é apenas um livro sobre relacionamentos; é um manifesto sensível para quem deseja libertar o amor de suas velhas amarras coloniais e construir pontes mais sinceras consigo mesmo e com o outro.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Sugestão de Leitura: Canção para Ninar Menino Grande

"Fio Jasmim trazia no corpo a pressa dos dias e a lentidão das noites vazias. Buscava nos braços das mulheres um acalanto que ele mesmo não sabia nomear, como se cada corpo feminino fosse um porto temporário para a sua eterna errância. Homem grande, musculoso, mas que carregava no peito o choro contido de um menino que a vida esqueceu de ninar."

Neste livro, Conceição Evaristo transborda poesia e realidade ao nos entregar Fio Jasmim, que reflete com maestria as contradições complexidades em torno da masculinidade de homens negros e os efeitos nas relações com mulheres negras. Aqui, nosso protagonista é um homem em fuga de si mesmo, que busca nos braços de muitas mulheres o acalanto que lhe falta na alma. A narrativa também aborda a tremenda força das mulheres que cruzam sua vida, que ditam o ritmo do jogo e decidem quando fechar as portas para ele. A autora costura uma narrativa arrebatadora sobre solidão, desejo e as marcas profundas que o tempo deixa na pele e no coração.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Leituras obrigatórias: um panorama de Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf

 


"Com Dalloway não tinha constrangimento. Era um excelente homem; um pouco limitado, um pouco espesso; sim, mas um excelente homem. No que quer que se metesse, fazia-o da mesma maneira positiva; sem um toque de imaginação, sem uma faísca de brilho, mas com a inexplicável delicadeza característica de seu tipo."

Quantas coisas podem acontecer em um dia? Em Mrs. Dalloway, acompanhamos Clarissa Dalloway, uma mulher da elite de Londres pós-Primeira Guerra, que sai de manhã para comprar flores para a festa que vai dar à noite. Só isso. 24h de um dia comum onde a óptica se passa dentro dos pensamentos de Clarissa, onde nada é realmente simples — memórias de juventude, escolhas do passado, arrependimentos e as pressões sociais do presente. Woolf foi precursora do feminismo contemporâneo, ao nos entregar mrs. Dalloway, passamos a vivenciar o peso de abrir mão de seus desejos de juventude, de sua liberdade e de um amor genuíno para se casar com um homem estável e previsível. Ela fez o que a sociedade esperava dela: tornou-se a "anfitriã perfeita". Clarissa não tem nome, é simplesmente mrs. Dalloway.

Virgínia Woolf é considerada uma das principais escritoras do século XX, foi uma das pioneiras no uso de fluxo de consciência, em vez de contar uma história com "início, meio e fim" tradicionais, a escrita dela imita o ritmo real dos nossos pensamentos: caótico, fluido, pulando de uma lembrança de dez anos atrás para o barulho de um carro na rua em um piscar de olhos. Ela prova que, um dia normal na vida de qualquer pessoa pode ser tão grandioso quanto uma epopeia.